Pesquisar este blog

Carregando...

A FORMAÇÃO DO CÂNON BÍBLICO


Introdução

Cânon significa inventário ou lista de escritos ou livros sagrados considerados inspirados por Deus pelos israelitas e cristãos. No hebraico a palavra é qenéh; no grego, kanóni.
Hoje, existem duas listas de livros que se completam entre si. Um é chamado Antigo Testamento (Antiga Aliança); o outro, Novo Testamento (Nova Aliança). O primeiro revela a promessa de Deus aos homens, através de um povo, Israel, enquanto o outro, o seu cumprimento. Vejamos algumas passagens que falam dessas alianças. A primeira foi pronunciada pelo próprio Deus a Moisés, após o livramento de Israel da escravidão do Egito:

"Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel." (Ex 19 : 5-6)

A passagem abaixo revela que viria uma nova aliança, pois a antiga não era perfeita, mas era apenas a sombra da segunda aliança que estava por vir:

"Eis que dias vêm, diz o Senhor, que eu vou fazer um novo testamento para a casa de Israel e para a casa de Judá, não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito, porque invalidaram a minha aliança, apesar de eu ter desposado, diz o Senhor. Mas esta é a aliança que farei com a casa de  Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior,
e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo." (Jr 31:31-33).

E a aliança perfeita veio através de Jesus, e Seu Espírito é o que escreve a Lei no nosso coração:

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.” (Gl 4:4-7)

"Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de uma melhor aliança que está confirmada em melhores promessas."  (Hb 8 : 6)

É incrível pensar que, segundo estudiosos cristãos, tanto os livros do AT, quanto os do NT, foram escritos em um período de aproximadamente 1600 anos, por 40 autores diferentes, que falavam línguas diferentes, viveram em épocas e lugares distintos, puderam proporcionar a nós literaturas que se complementam, sem desfocar a ideia principal, que é a esperança da vinda do Messias e o Plano de Salvação de Deus para o homem.

Mais incrível ainda é imaginar que os guardiões desses livros, que passaram por diversas situações desfavoráveis à preservação desses escritos, em vários períodos de sua existência, conseguiram conservá-los para nós. Eles sofreram a invasão de sua terra e destruição de seu templo, foram levados cativos por tantos povos, voltaram para a sua terra, reconstruíram tudo, mas depois sofreram outras perseguições, assassinatos, mas nada disso impediu o mundo de conhecer aquelas letras. O mesmo pode-se dizer dos Escritos no NT, que também foram defendidos até com a vida.

Todos os esforços para a preservação desses livros frutificaram na formação dos dois Cânones, que hoje juntos, chamamos de “a Bíblia Sagrada”. Porém, os ataques para a destruição desse livro ainda não acabaram, mas dessa vez, eles são sorrateiros como  serpentes, pois não vêm de forma física, como perseguições dos seus seguidores, mas, sim, de forma filosófica.

Foram diversas as tentativas que visavam a minar a credibilidade da Bíblia. A Alta Crítica levantou questões e dúvidas sobre o que nem mesmo era possível imaginar. Foi um período negro para o cristianismo. Mesmo com as grandes descobertas da arqueologia, que comprovaram a historicidade de várias passagens bíblicas que eram questionadas pela Alta Crítica, ela contaminou a fé de muitos cristãos desapercebidos, que se levantaram contra a verdade bíblica e lançaram falsas doutrinas que convenceram muitos cristãos. A ideia de que a Bíblia não poderia mais ser lida de forma literal foi uma bomba no meio cristão, que gerou facções nas principais igrejas. Mas, felizmente, os verdadeiros cristãos se levantaram, com a ajuda do Espírito Santo, para defender o ensino cristalino, e lançar fora as falsas doutrinas e interpretações estranhas e deturpadas da Palavra de Deus. Devemos ter em mente que essa é uma guerra que os verdadeiros cristãos têm que enfrentar, dia após dia, e permanecerem fortes, com suas lamparinas acessas, até a volta de Cristo.

Diante desse pequeno resumo sobre as dificuldades que a Bíblia encontrou e encontra para estar hoje em nossas mãos e permanecer respeitada, como é possível não enxergar a mão de Deus sobre ela? Se a Bíblia fosse um livro comum, criado pela vontade do homem, como poderia ser o livro mais antigo, mais vendido e mais traduzido do mundo?

O Antigo Testamento

Hoje são considerados parte do Cânon do AT, um total de 36 livros. A formação desse Cânon não se deu de um dia para o outro, mas foi consequência de diversos acontecimentos, em vários períodos da história.

Estudiosos dizem que o profeta Moisés começou a escrever os primeiros cinco livros canônicos, conjunto de escritos chamado de Pentateuco pelos israelitas. De acordo com Êxodo 17:14,  Deus havia ordenado que ele registrasse a respeito da Batalha de Refidim, a vitória de Israel contra os amalequitas. Mais tarde vieram os Dez Mandamentos (34:1,27,28). O Livro de Deuteronômio faz uma recapitulação de todos os acontecimentos.

A Palavra de Deus era transmitida pelo método oral, de pai para filho, antes mesmo de Deus ter ordenado que Moisés escrevesse a respeito daquela batalha, como pode ser visto no trecho do Livro de Jó, tido pelos estudiosos como um dos livros mais antigos do VT: "Escuta-me, mostrar-te-ei; e o que tenho visto te contarei; o que os sábios anunciaram, ouvindo-o de seus pais, e o não ocultaram ..." (Jó 15:17,18).

Segundo a literatura judaica, Esdras, na qualidade de escriba e sacerdote, presidiu um conselho formado por 120 membros chamado de Grande Sinagoga que teria selecionado e preservado os rolos sagrados. Alguns estudiosos, apesar de haver controvérsias, acreditam que foi naquele tempo que o Cânon das Escrituras do Antigo Testamento foi fixado (Esdras 7:10,14). Mas há unanimidade na afirmação de que foi essa Organização que restaurou a vida religiosa nacional dos repatriados e, mais tarde, deu origem ao Supremo Tribunal Judaico, denominado Sinédrio.

Curiosamente os Saduceus e os Samaritanos só aceitavam como canônicos os cinco livros de Moisés. Por essa razão, os especialistas especulam que Esdras tenha reunido apenas o Pentateuco.

O Novo Testamento

Hoje, o NT é composto de 27 livros. A maioria desses livros não foram planejadamente escritos para se formar uma bíblia. Essas escrituras se formaram, principalmente, impulsionadas por situações especiais, como a dificuldade de locomoção. Algumas surgiram da necessidade de comunicação entre os apóstolos e as igrejas fundadas nas diversas cidades. Algumas pareciam cartas circulares, tirando dúvidas sobre diversos assuntos; outras eram direcionadas especificamente a uma determinada igreja, ou povoado. A impossibilidade de se encontrar com alguma comunidade, como no caso da prisão de Paulo, acabou sendo uma alavanca para a escritura de muitas das suas cartas, que compõem o NT.

O Evangelho de Lucas e o Livro de Atos foram cartas escritas por Lucas, um médico que passou a servir a Deus, como podemos ver nos agradecimentos de algumas cartas de Paulo. As duas cartas que ele escreveu foram destinadas a um homem chamado Teófilo, e aparentemente, foi a seu pedido, pois ele discrimina no Evangelho de Lucas, que está descrevendo detalhadamente o que já havia confirmado, sobre as verdades acontecidas na região.

Os livros que entraram no Cânon Sagrado do Novo Testamento não foram às únicas obras da literatura cristã escritas nos primeiros séculos de nossa era, daí a dificuldade de escolher qual obra deveria fazer parte do Canon. O processo de canonização dos livros dessa parte das Escrituras começou cedo, com textos sendo explicitamente rejeitados já no tempo dos discípulos.

A Referência mais antiga que se tem sobre o Cânon do NT se encontra em um manuscrito descoberto pelo sacerdote italiano Ludovico Antonio Muratori no séc. XVIII, datado do séc. II. Por causa do nome de seu descobridor, esse documento ficou conhecido como Cânon de Muratori. Nesse escrito estão relacionados os 4 Evangelhos, as cartas paulinas, a Epístola de Judas e I e II João e o Apocalipse. Não são relacionadas as epístolas aos Hebreus, de Tiago e nem I e II Pedro.

A lista completa dos livros do NT, conforme existe hoje, aparece pela primeira vez na Epístola 39 de Santo Atanásio de Alexandria para a Páscoa de 367 d.C.; mais tarde aparece em documentos posteriores como o Decreto de Gelasiano, e foi ratificada nos concílios de Hipona e Cartago III e IV.

A Ligação entre o AT e o NT

É interessante ressaltar, que a confiabilidade do Cânon do Antigo Testamento pode ser vista nos Evangelhos e nas epístolas do Novo Testamento. Na Igreja Primitiva, os testemunhos de Jesus eram repetidos pelos apóstolos e discípulos, que colocaram grande parte em forma escrita, o que tornou o núcleo do cânon definido pela Igreja nos primeiros séculos. Há citações de Jesus referentes aos livros de Gênesis, Deuteronômio, Números, I Samuel, Salmos, Malaquias e Daniel, reconhecendo-os como a Palavra de Deus (Mateus 12:3; 19:4; 22:37-40), sem falar nas diversas citações da Lei, dos Livros Poéticos e dos Profetas.

Controvérsias

Apesar de Jesus Cristo e os Apóstolos terem feito várias citações de diversos livros do AT, comprovando a sua validade para o cristianismo, a escolha de quais seriam os livros que fariam parte do Cânon do AT não foi uma tarefa fácil. A mesma dificuldade foi encontrada para a formação do Cânon do NT.

Havia muitas dúvidas quanto ao livro de Ester e Cântico dos Cânticos. Estudiosos, como Leonard Rost, por exemplo, afirmam que alguns livros demoraram muito para serem aceitos devido às dúvidas de autoria e inspiração Divina. Hoje ainda há resistência em muitas comunidades judaicas, como o caso dos judeus do Egito, quem tem um cânon semelhante ao Católico e Ortodoxo.

No NT, controvérsias eram a respeito dos livros de Hebreus, Tiago, Pedro, Apocalipse, II e III João e II Pedro. Por essa razão alguns estudiosos os chamam de Deuterocanônicos do NT. Da mesma forma, outros livros já estiveram no cânon NT, porém depois foram rejeitados. É o caso da Primeira Carta de Clemente aos Coríntios (séc. I) e o Pastor de Hermas (séc. II).

Alguns dizem que o Cânon Hebraico de 39 livros, só foi realmente fixado no século IV. As opiniões eram muito diversas. Pais da Igreja como Melito, Cipriano e Rufino de Aquileia postulavam pelo Cânon Hebraico (com 39 livros, excluindo os deuterocanônicos). Já Ireneu, São Justino e Santo Agostinho defendiam o Cânon Alexandrino (com 46 livros, incluindo os Deuterocanônicos). Jerônimo começou negando a canonicidade dos Deuterocanônicos, embora os tenha incluído em sua Vulgata. Escritos seus posteriores mostram que esta sua posição inicial foi revista, é o que se verifica em sua Carta a Rufino e outra a Paulino, Bispo de Nola.

Depois do séc. IV, o Cânon Alexandrino havia obtido aceitação ampla em toda Igreja: no Ocidente com as versões da Vetus Latina e a Vulgata; no Oriente com a Septuaginta.
Ainda assim, muito mais tarde, não havia consenso entre os Protestantes sobre o Cânon do AT e do NT. Durante a Reforma Protestante, mesmo duvidando da autoria de alguns livros, Martinho Lutero traduziu todos os livros para o alemão em 1522, perfazendo ao todo 27 livros que temos hoje.

O Rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version), defendia que os Deuterocanônicos deveriam continuar constando nas Bíblias.
O Concílio de Trento, no 1º Período (1545-48), promulgou os decretos sobre o cânon sagrado para a Igreja Católica Romana reafirmando o Cânon do Novo Testamento também com os 27 livros que temos hoje.

Bibliografia

HARRIS, Laird. Inspiração e Canonicidade da Bíblia
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico - A Origem da Lista dos Livros Sagrados. São José dos Campos-SP:
PASQUERO, Fedele. O Mundo da Bíblia, Autores Vários. São Paulo: Paulinas, 1986.
ROST, Leonard. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudo-Epígrafos do Antigo Testamento. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário